Reencontrar a própria voz

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Ontem escrevia à roda de meu quarto, hoje escrevo no ônibus, voltando de Parelheiros, extremo sul da cidade de São Paulo.

E o que me vi conversando comigo mesma neste fim de tarde chuvoso? Que estive em busca de reencontrar minha voz nas coisas que escrevo em meus posts, em meus artigos, em meus escritos pessoais.

Encontrar a própria voz na escrita é um exercício e um risco diário, para quem escolhe esta prática como um instrumento de expressão. Uma vez encontrada, entretanto, nada garante que você apropriou-se dela. Aliás, “au contraire”.

Uma vez que se experimente este modo de falar consigo mesma, algo dentro de si ganha uma autonomia curiosa, às vezes assombrosa.

E foi assim que, após algum tempo em aparente silêncio, hoje em Parelheiros algo desta pessoa que sou lá dentro, voltou a me falar.

E não quis falar do assombro, ou da inquietação com a precariedade, com a vulnerabilidade e esta estranha sensação de distância e aproximação simultânea entre nossos mundos.

Mas me chamou a atenção para um certo silêncio vazio que se abriu recentemente no meu infinito particular, como diz aquela letra de Marisa Monte.

Um silêncio vazio ao ver esse menino caminhar com um pedaço de melancia ao ombro e uma sacola de frutas pendurada na mão esquerda.

Um silêncio que foi quebrado com a fala animada das minhas interlocutoras, meninas moradoras do local. Não têm 20 anos mas já têm filhas e filhos de 4, 5 anos. São lindas, inteligentes e gostam de falar de suas histórias. Dirigem meu olhar para a escada íngreme e escorregadia que submerge no solo abaixo à minha direita.

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Uma delas lembra que, ainda gestante, caiu ali em uma noite escura. De outra feita, não conseguiu chegar em casa, bendizendo a sorte de ter podido dormir na casa de sua mãe. Quantas outras jovens gestantes têm suas mães por perto com quem contar?

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E me apontam: “olha ali à esquerda, que rampa íngreme, vê à direita, que escada inclinada? A mobilidade aqui é muito difícil…” me contam.

E pergunto o que tornaria a vida delas melhor…

”se a escada tivesse um lugar pra segurar, seria bom.. especialmente quando tem grávida, e com bebê no colo… e também se fosse iluminada…, porque de noite é mesmo muito escuro…”

E algo lá dentro de mim me tirou daquele silêncio vazio, expressando este simples desejo. Que aquelas moças que nos ofereceram torrada, bolo e café quentinho tivessem bons corrimãos nas escadas em seus caminhos, e uma boa luz para voltarem seguras com suas crianças para casa na noite chuvosa desta terça-feira paulistana.

Abraços e até!

Ana Gabriela

As fotos são minhas mesmo. Confiram as outras em meu instagram: anagabrielagodiholima

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