Sobre Wittgenstein e aquilo que pode ser dito

“Posso escrever acerca do sei, mas posso igualmente escrever sobre aquilo que não sei”.

Fiz esse registro há anos, mas não acho mais esse caderno. Lembro que era pequeno, tinha uma encadernação em espiral e uma capa dura em tons de branco e vermelho.

Eram anotações acerca de uma palestra sobre o conhecimento científico e a reflexão auto-biográfica, ou ao menos é assim que recordo.

Não posso dizer que minhas anotações eram fiéis ao que o palestrante dizia, mas lembro de ter gostado particularmente da ideia de escrever sobre aquilo que não sabemos. Não haveria aí algo de estimulante, reflexivo – porque indagador – acerca de um objeto, ou assunto, sobre o qual pouco, ou nada, se sabe?

Na impossibilidade de procurar na hora em que me vieram estes pensamentos, fiquei buscando lembrar o que dizia mesmo Wittgenstein sobre “aquilo de que se pode falar”, e das associações entre seu trabalho e o Tao Te Ching, feitas por gente que estuda o assunto.

Assumindo que eu esteja me sentindo propensa, hoje, a escrever sobre um assunto que eu pouco sei, vamos ver o que se passa ao lançar algumas ideias para uma verificação posterior.

Começo pelo trecho de um aforismo do Tao te Ching:

O Tao do qual se pode falar não é o Tao eterno
O Nome que pode ser nomeado não é o nome eterno
O sem nome é a origem do Céu e da Terra
O que tem nome é mãe de todas as coisas

E agora um trecho de Wittgenstein:

„A solução do enigma da vida no espaço e no tempo encontra-se fora do espaço e do tempo.“

E encerro minha curiosa tentativa ponderando sobre o seguinte. Assim que lançamos mão de uma estrutura de pensamento para entender algo, contemplamos uma projeção recém reorganizada de nossos pensamentos passados sobre aquilo, ou algo semelhante àquilo.

Sendo assim, a apreciação da arquitetura, da arte, de algum modo são restringidos no momento mesmo em que se pensa, ou se fala, ou se escreve, a seu respeito. O que me leva a outro aforismo de Wittgenstein:

„Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar.“

O que me leva ao seguinte raciocínio, que peço que minhas leitoras e leitores considerem com leveza e senso de humor. Não seria um exercício mais enriquecedor, e ampliador de possibilidades, diante da obra de arte, da arquitetura, ou até mesmo de uma situação nova, pensar, falar e escrever a respeito daquilo que não se sabe?

Quem sabe nos encontramos em um café por aí um dia desses e levamos esse papo adiante?

Abraços!

Ana Gabriela

A imagem que ilustra meu post de hoje é uma foto do pires retangular de minha xícara de café. O que mais gosto nele é o fato de parecer uma imagem do espaço sideral! Olhando-a, seria bem difícil adivinhar sua origem, não é verdade?

Trilha sonora do post de hoje: (Min Soldat, Scott Hamilton)

Referências para os trechos que mencionei:

http://www.taoism.net/br/laotzu/taote/chap01br.html

https://citacoes.in/autores/ludwig-wittgenstein/

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