O Lugar da Mulher na Arquitetura

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A primeira resposta que me veio à cabeça diante da pergunta proposta pelo CAU, “Qual é o lugar da mulher na profissão?” foi: posicionar-se em relação às áreas de atuação da arquitetura e urbanismo, e assumir as atribuições próprias e peculiares à profissão. Sob a perspectiva da atuação profissional, é de se pensar se desejamos delimitar uma esfera, um local, uma posição específica para a mulher.
De qualquer modo, algumas posições mais frequentes já foram mapeadas há tempos, e parecem não ter se alterado significativamente. Em 1977, Gwendolyn Wright em: On the Fringe of the Profession: Women in American Architecture”, identifica 4 posições:
  1. a arquiteta excepcional, que, sacrificando a vida pessoal, casamento, filhos, etc., e trabalhando arduamente, alcançou um grau dereconhecimento incomum para uma mulher, e comparável ao de umhomem excepcional;
  2. a desenhista anônima, que trabalha em escritórios tolerando adiscriminação e a falta de reconhecimento do mérito de seu trabalho.Esta prossional também encontrava dificuldades em conciliar aprofissão com a vida pessoal, o casamento e os serviços domésticos, na maioria ainda sob sua maior responsabilidade;
  3. a profissional adjunta, que, possuindo interesse pelo aspecto socialdo ambiente construído, seguiu caminhos diferentes na arquitetura: professora, historiadora, crítica, escritora, jornalista, etc…;
  4. a profissional das reformas sociais, que, também sem uma formaçãoespecfica em arquitetura, dedicou-se a buscar alternativas dehabitação e cidadania para os excluídos ou marginalizados.
(Wright in Lima: 2013)
Em 2015, quando coordenei o ramo brasileiro do levantamento internacional “Women in Architecture: 1975-2015” (Organizado por Eva Álvarez – Universidade Politécnica de Valência – Espanha e Yasmin Shariff, Architectural Association – Reino Unido), esta situação parece ter se mantido, ao menos nos 25 países em que a pesquisa foi realizada.
Ou seja, poderíamos dizer, ainda hoje, que o lugar da mulher na profissão é predominantemente anônimo, adjunto e muito mais frequentemente, à margem da própria profissão, no que se refere à profissionais das reformas sociais. Como Wright pondera, entretanto, ainda assim, um modo de trabalhar nos campos afetos à arquitetura. Ao menos se considerarmos sob a perspectiva das atribuições e responsabilidades que a profissão da Arquitetura e Urbanismo invocam como suas.
Nos últimos anos, em que tenho voltado minha própria prática profissional, predominantemente como pesquisadora, ao tema dos territórios urbanos vulneráveis, tive a oportunidade de constatar, ao lado das e dos colegas de projetos de pesquisa, a imensa maioria de mulheres nos trabalhos ligados ao 4o ponto de Wright – “a profissional das reformas sociais”.
Alguns dados ligados a esta questão nos chamam a atenção, imagino, como arquitetas e arquitetos. Hoje, a maior parte da população urbana latino-americana, 85% das pessoas, vive em território urbano. A maior parte destas pessoas vive com algum grau de precariedade. Uma porcentagem expressiva, em condições de vulnerabilidade social. A maior parte destas pessoas, mulheres e crianças. Se somarmos a este contingente os idosos, deficientes físicos e o contingente de pessoas que precisam de alguém que cuide delas, esta proporção fica ainda maior. Hoje, 85% das crianças é cuidada por mulheres, sejam mães, tias, avós, irmãs… a maior parte das pessoas que precisam de assistência também é cuidada por mulheres.
Vejamos como essa questão é vivida pelos indivíduos no território urbano. De acordo com os Proceedings da ConferênciaSmall Children, Big Cities: Building Smart Child-friendly Cities for the 21st Century (2014, India)as crianças pequenas são afetadas por todos os aspectos das cidades, dos quais, os mais significativos são experimentados nas seguintes áreas:
Água e saneamento básico
Habitação decente
Serviços à primeira infância – como berçários e creches
Assistência à saúde
Espaços de recreação
Transporte
Segurança
Quais destas áreas não são afetas a nossa profissão?
A questão é que a porção que cresce mais rápido nos territórios urbanos é justamente a informal e precária. Em que os ítens acima são precariamente oferecidos, se o forem de algum modo. Nesses cenários, as pessoas engajadas no trabalho diário de sobrevivência, e mitigação, desta situação, são, em sua vasta maioria, mulheres.
Talvez uma dos maiores e mais graves situações com que a profissão da arquitetura e urbanismo se depara hoje seja justamente o crescimento explosivo e desordenado dos territórios informais. Como enfrentar o conjunto de problemas que se nos apresentam neste contexto?
No momento, as mulheres constituem a maioria das pessoas engajadas de algum modo em trabalhar nestas situações desafiadoras.
De modo que parece valer a pena, numa gentil e bem intencionada provocação, propor a pergunta:
“Qual o lugar do homem na profissão?”
Muito obrigada!
Ana Gabriela
Meus agradecimentos e reconhecimento pela colaboração e produção conjunta de conhecimento às pesquisadoras e pesquisadores do Projeto “Cultura, cidade, Gênero e 1a Infância”, coordenado por mim e pelo Prof. Ms. Rodrigo Mindlin Loeb, no âmbito do Termo de Cooperação Técnica Universidade Presbiteriana Mackenzie e Instituto Brasiliana. Assinalo aqui também o financiamento concedido pela Fundação Bernard Van Leer a uma de nossas mais importantes iniciativas – SPUrban95 Challenge –  Núcleo de Pesquisa e Intervenção: Cidade, Gênero e 1a Infância.
Ref. bibliográfica:
Lima, Ana Gabriela Godinho Lima. Arquitetas e Arquiteturas na América Latina do Século XX. São Paulo: Altamira Editorial, 2013. Disponível gratuitamente para download em: https://femininoeplural.wordpress.com/e-book/
*Este post reproduz o texto que serviu para minha fala no Evento do CAU/SP ocorrido hoje, 08/03/2018, no saguão da FAU Mackenzie.
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