Clarice Lispector e uma palavra final

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“Olhar é o necessário instrumento que, depois de usado, jogarei fora”.

Clarice Lispector foi a autora que me reapareceu nestes últimos dias, por uma aluna, em seu trabalho final de graduação, e no papo com um amigo, nestas conversas ao acaso que acontecem sem a gente esperar, e que fazem a gente matutar. “Uma palavra final” porque estou escrevendo este post ao repassar o que pretendo dizer às alunas e alunos na última aula de minha disciplina de Pós-Graduação, “Questões de Ensino de Arquitetura e Urbanismo”.

E retomei esta frase de Clarice…

“Olhar é o necessário instrumento que, depois de usado, jogarei fora.”

Está no texto “O ovo e a galinha”, que minha aluna trouxe para seu trabalho, e por causa dela eu uso aqui.

Me demorei um pouco mais na ideia do olhar como instrumento, e em como olhamos as coisas, e as pessoas, prendendo-as nos nossos velhos e bons discursos, que nos servem para por tudo e todas e todos em seus lugares.

Claro que há os discursos que a gente sabe que são problemáticos: os clichês, os conservadores, os preconceituosos, os machistas, os ultrapassados, os cristalizados, etc.. mas a estes somos todos atentos, e talvez saibamos como nos esquivar.

Mas e os discursos bacanas? Contemporâneos, abertos, flexíveis?  Aqueles cultos, sofisticados, politicamente bem posicionados. Originais, criativos, insólitos, únicos?

Esses também, Clarice, vamos usar e jogar fora?

Se eu pudesse  compartilhar algo que valha a pena do que aprendi com a experiência eu diria: sim, acho que convém que façamos como Clarice e, depois de olhar, seja o ovo, seja a aluna ou aluno na nossa frente, sejam nossas filhas, filhos, esposas e maridos, velhas amigas e velhos amigos, joguemos estes bons instrumentos, estes nossos olhares espertos, cultos, experientes e sofisticados fora… e esperemos pra ver o que vem depois.

Depois de tanto tempo dando aula, posso dizer que tipo de garota ou garoto aquela aluna ou aquele aluno devem ser, mas também aprendi que, certamente, a maior parte do que ela e ele são eu deixei de fora.

Tenho menos experiência com filha, tenho só uma, e filho, tenho só um, embora seja uma vivência intensiva! E a cada vez que acho que entendi quem são, veja só, uma parte disso  ela e ele, na verdade, não são…

Meu marido, estamos há tanto tempo juntos, e eu conheço tantas teorias sobre o que os homens são, e o que as mulheres são, e o que os relacionamentos são, e o que os relacionamentos deveriam ser, o que não deveriam ser, que, realmente, acho até engraçado imaginar que eu possa olhá-lo e dizer que entendi mesmo alguma coisa do que ele é. O senso de humor, vontade de ter boa vontade e o apreço pela boa comida nos salvam!

As coisas simples nos salvam, comer, beber e rir…

O olhar é tão complicado! Bem fez Clarice ao jogá-lo fora, afinal.

E as velhas amigas e os velhos amigos? Se eu ainda pudesse dizer alguma coisa, quando sei que perdi a oportunidade, talvez eu devesse recorrer a bons e velhos clichês, dizendo: “afinal demos boas risadas juntas!” ou “mesmo que não concorde com seu estilo de vida, é um prazer conversa com você”.

Todo olhar diz alguma coisa para o objeto olhado. Toda professora, com seu olhar, diz alguma coisa para cada aluna, cada aluno, cada classe. Se eu pudesse ser coerente com o que digo, e sugerir uma única coisa que talvez fizesse  uma certa diferença, como professora, como mãe, como esposa e como amiga, eu sugeriria, como já disse, que façamos todos como Clarice:  joguemos nossos olhares classificatórios, interpretativos e proféticos fora, e esperemos candidamente o que vem depois.

Abraços,

Ana Gabriela

Fonte da imagem:

 

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Como escrever uma introdução nota 10

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Entre os experientes em escrita, é comum dizer-se que a introdução é o que se faz por último, e por um bom motivo. É na introdução que podemos falar sobre nosso trabalho inteiro, dando à leitora ou ao leitor, um mapa, um roteiro das ideias que serão desenvolvidas ao longo da leitura.

Isto, claro, se o seu texto não for um romance de mistério. Nesse caso é melhor revelar o autor do crime no final. Mas se seu trabalho é uma monografia, uma dissertação ou uma tese, acredite em mim: sua leitora ou seu leitor vai preferir que você explique sobre o que é, afinal, o seu trabalho, nos primeiros três parágrafos.

A questão é, como fazer isso?

Seguem alguns insights que podem te ajudar:

1.) A primeira sentença da sua introdução deve conter as seguintes informações:

Sobre o que é este trabalho? 

Lembre das eternas perguntas! O que, como, quando, porque, aonde, em que período!

Porque você fez este trabalho?

Ou seja, porque ele é interessante? Qual interesse específico você viu nele? Porque você acha que outras pessoas podem interessar-se pelo tema? Como você acha que seu trabalho pode beneficiar outras alunas e alunos, de graduação, mestrado ou doutorado? Como você acha que seu trabalho pode interessar profissionais das áreas abordadas em seu trabalho?

Quais os principais três textos em que você se baseou para desenvolver seu trabalho?

Cite cada texto, explique quem é sua autora ou seu autor – seja livro ou site – e desenvolva um parágrafo sobre cada um deles.

Quais as principais dificuldades encontradas para desenvolver seu trabalho?

Pense nisso, o que foi mais complicado? Achar bibliografia? Encontrar dados? Estruturar o trabalho? Descreva a dificuldade e como você a superou.

O que te deu mais prazer, ou “sensação de cumprir um propósito”, ao desenvolver seu trabalho?

Dê a seu leitor um perspectiva interessante, mesmo que seu trabalho fale sobre um tema difícil.  Fale sobre como você se sentiu ao encontrar dados que comprovavam suas suspeitas, ou  ao conversar sobre o tema com alguém, ou como uma amiga ou amigo te ajudou, ou como foram as entrevistas e visitas e locais, e o valor das experiências que você viveu.

Explique rapidamente a estrutura do trabalho

Explique rapidamente a estrutura do seu trabalho, quais são os capítulos e como se encadeiam.

E pronto!!

Veja como ficou sua introdução, no dia seguinte, reveja para localizar erros, reorganizar a estrutura de pensamento, mexer aqui e ali. Talvez valha a pena escrever duas ou três linhas finais, introduzindo a leitora ou leitor ao primeiro capítulo? Isso fica a seu critério!

 

Abraços!

Ana Gabriela

Fonte da imagem:

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Sobre a frase atribuída à Zaha Hadid – achei bacana, concordo e aparece em vários lugares na web. Entretanto, não verifiquei sua veracidade. Se você tem conhecimento de que esta frase não é atribuível à Sra. Hadid, agradeço a gentileza e generosidade de me informar.

 

Prestando atenção no que se passa dentro de você como caminho para a escrita

getimage.jpgEste fim de semana estive relendo o Made by the Office for Metropolitan Architecture: an Etnography of Design, de Albena Yaneva. Tenho um especial interesse nestes trabalhos de investigação do dia-a-dia da prática dos escritórios de arquitetura e design, sendo eu mesma uma praticante deste curioso ofício – observar e pensar a respeito daquilo que se passa no quotidiano de trabalho, conversar com as pessoas envolvidas em suas situações de trabalho, e procurar, de algum modo, retornar para elas alguma apreciação minha sobre o que vi e percebi.

O interesse de minhas apreciações não residem no que relato, em si, mas sim na possibilidade de oferecer, a quem relato, uma perspectiva específica, sob um ângulo não imaginado antes, a partir de uma referência outra. Não melhor, não pior: outra.

Encontrei na releitura de Yaneva um trecho que exprimiu tão bem esta ideia, e que gostaria de deixar como tema para pensar nosso trabalho de escrita, ou qualquer outro trabalho criativo, hoje:

“Esta estratégia de escrita procura criar um texto reflexivo, ao tentar dirigir atenção para o leitor em si, para sua própria vida e experiência como projetista”.

(This writing strategy aims at creating a reflexive text by trying to direct attention to the reader himself, to his own life and experience as a designer.)

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Nesta semana, em que trabalhamos aqui no blog nas conclusões parciais ou finais, a ideia é que, em nossa própria escrita, procuremos pensar em  nossas leitoras e leitores, explorando mental e emocionalmente o que temos em comum com estas (possíveis) pessoas, e então escrever a partir daquilo que você sente que tem em comum com elas, e que as faria refletir, porque te fez refletir.

Para escrever assim, preste atenção ao que se passa dentro de você, explore as inquietudes, as dúvidas, os anseios, e procure escrever, sobre seu trabalho, a partir daí. Pense nisso como uma interessante experiência de escrita!

Abraços e até mais!

Ana Gabriela

Fonte da imagem:

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Impacto ou contribuição? Dureza ou suavidade?

Nas últimas semanas me peguei matutando por conta do retorno de algumas alunas e alunos, contendo uma tônica em comum: minha atitude como professora parecia, digamos, assertiva demais. Especialmente se comparada aos cursos anteriores em que já havíamos nos encontrado, e eu parecera mais suave e “na boa”…

Fiquei agradecida e surpresa.

Agradecida pelo modo gentil e generoso com que cada uma, e cada um, me trouxe um comentário, um exemplo, uma pergunta, sinalizando um certo estranhamento diante desta mudança.

Surpresa porque eu não havia percebido! E, claro, elas e eles tinham razão! E parei pra pensar um pouco sobre isso. Eis minhas auto-reflexões preliminares.

A primeira: quando concentramos demais nosso foco, parece que não enxergamos nada em volta! Ou enxergamos menos… Lembro de uma entrevista com o legendário jogador de basquete, Michael Jordan. Ele dizia que quando entrava na quadra eram apenas ele e a cesta, e sua atenção se concentrava obcecadamente em sua meta: converter o ponto!

Bem, claro que não estou nem perto de ser excepcional como Michael Jordan, mas é verdade que até minhas alunas e alunos me darem um toque, admito que estava hiperfocada em meu novo projeto de pesquisa. Mesmo querendo beneficiar minhas parceiras e parceiros, trazer novas oportunidades para pesquisadoras e pesquisadores com quem trabalho, meu foco estava em aprender os dados, as referências, o novo universo de estudo. Minha porção cientista assumiu a maior parte do controle! Talvez por causa do prazer enorme que há em desbravar novos territórios de conhecimento!!

E um de meus queridos alunos me conta em sua mensagem, que ficou incomodado quando perguntei às alunas e alunos sobre qual impacto desejavam causar no mundo. Ele escreve: “Já causamos impactos demais no mundo”.

Concordo. Minha auto-reflexão me levou a admitir a possibilidade de que, em minha performance focada-científica-professoral na aula a que ele se referia, talvez eu tenha pronunciado a palavra “impacto” como quem descreve a queda de um meteoro na superfície terrestre.

Como o Inquietudes Projetuais é um blog que procura compartilhar insights com quem está desenvolvendo um trabalho criativo, permita-me sugerir uma abordagem diferente para impacto.

Para seu trabalho, neste mês que se inicia, pense em impacto como a contribuição que você deseja oferecer ao mundo. Qual o seu presente, por modesto e simples que seja?

A Semana 1 aqui no blog é dedicada a pensar, ou revisar seus objetivos. Então pense nisso, mas não exagere no foco, como eu vinha fazendo nas primeiras aulas de meu curso.

Contribuição não tem a ver apenas com resultados concretos, números, índices, etc… Tem a ver também com as pessoas que você inspira, e que te inspiram também. Tem a ver com todo o bem que você deseja não apenas que se manifeste na vida das pessoas que você ama, de suas amigas e amigos, colegas, alunas e alunos. E com o bem que você deixa as pessoas trazerem pra você, na forma de uma conversa, um livro que você ganha de presente…

Tem a ver também com o bem que você deseja que se manifeste na vida das pessoas que vivem em condições precárias, frágeis, vulneráveis, que neste momento sofrem sem ter instrumentos para sair de suas condições por si próprias.

Mesmo que modesta, uma pequena contribuição pode se somar a outras pequenas contribuições, e isso aos poucos exerce um impacto  positivo na realidade. É nesta imagem que eu acredito, e que eu desejo inspirar e alimentar em todas as pessoas com quem interajo.

É bom ser focada nos números, índices e resultados que você almeja para seu trabalho, mas isso precisa ser equilibrado com a visão geral, com a consideração pelas pessoas, e seus estados de espírito, e suas emoções e desejos, com quem você convive e na vida de quem sua ação e seu comportamento vai interferir!

É nisso que vou meditar neste mês de Abril, enquanto reviso minhas práticas em busca de recuperar a suavidade, como quem faz Tai-Chi-Chuan! Ou como inspira a lindíssima Igreja na Água, de Tadao Ando, que ilustra o post de hoje.

Também é minha sugestão para você, neste lindo mês outonal!

Abraços e bom trabalho!

Ana Gabriela

 

Fonte da imagem: http://img06.deviantart.net/3da6/i/2012/010/3/9/church_on_the_water___tadao_ando_by_phonginterior-d4lwc0k.jpg

 

 

 

 

 

 

Imagem e texto na pesquisa acadêmica

Oscar Niemeyer não apenas fazia desenhos com uma capacidade única de ficarem gravados nas mentes de estudantes e praticantes de arquitetura do mundo todo. Ele também escrevia lindamente.

Embora muitos de seus textos descrevessem projetos seus, acho que podemos dizer que também possuíam uma certa autonomia quanto à forma, a beleza, o ritmo e o estado de espírito a que se conduz a leitora, ou leitor, por meio da palavra escrita.

Retomemos este mais do que conhecido clássico de Oscar:

“Não é o ângulo reto que me atrai. Nem a linha reta. Dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual. A curva que encontro nas montanhas de meu país, no curso sinuoso dos rios, nas nuvens do céu, no corpo da mulher preferida.

De curvas é feito todo o universo. O universo curvo de Einstein.”

Compare esta versão simplesmente digitada com a imagem que ilustra este post.

 

Note como na primeira versão, a mensagem transforma-se, o engajamento com quem lê ganha outra dimensão, e mais conteúdo do universo interno de Oscar Niemeyer, e suas representações, se transmitem por meio da imagem de sua escrita à mão, de seu desenho de mulher, de seu desenho das curvas.

Como estamos na semana 5 -Revisão do texto, revisão da formatação de acordo com as normas ou padrões exigidos, diagramação – minha sugestão é:

pare e avalie como seu texto está estruturado visualmente? Qual o valor das imagens que você selecionou? Você está dando o devido valor às imagens, tendo em vista o tema do seu trabalho?

Faça um exercício simples com seu texto. Selecione um parágrafo e escolha uma imagem para ele. Note a diferença entre o parágrafo sozinho e o parágrafo acompanhado da imagem.

E é isso por hoje!

Abraços,

Ana Gabriela

Fonte das imagens:

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Certezas provisórias…

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Sou obcecada por imagens de artistas, arquitetas, arquitetos, trabalhando…esta é a jovem Fayga Ostrower.

semana passada não postei nada, estava envolvida em um breve jornada de revisão pessoal sobre minhas rotinas e rituais de trabalho. Acabei chegando à conclusão de que algumas coisas que eu achava excelentes na minha rotina na verdade eram um empecilho para a reflexão sobre coisas muito importantes na minha vida.

Porque dedicamos tempo a coisas que não têm tanta relevância em nossas vidas? Algumas respostas possíveis:

. Porque são mais fáceis;

. Porque são mais divertidas;

. Porque nos fazem sentir incríveis (ou ao menos mais espertas, ou espertos, do que somos de verdade).

Passada esta semana, dei uma sacudida boa em minha rotina, e eis-me aqui de regresso! Sinal de que meu querido blog continua sendo algo importante na minha vida.

E como estamos na semana da 5a etapa de trabalho, (o que é isso? Confira aqui.) minha sugestão é que você dê uma revisada no seu texto, refletindo sobre o seguinte: você mudou de ideia em relação a ago que você escreveu, ou fez, neste trabalho?

Veja seu texto como as arquitetas e arquitetos vêem seus croquis, como artistas encaram suas telas, esculturas… como trabalho em andamento, à espera de correções, ajustes, ou até mesmo mudanças radicais de rumo! Já ouvi histórias de escritórios de arquitetura que, após passarem semanas desenvolvendo uma ideia, subitamente chegam à conclusão de que ela não era boa. O que fazem? Descartam tudo o que não servia, começam tudo de novo! Mas dessa vez, melhor e de modo mais consciente.

Se mudou de ideia, dê as boas-vindas e analise esta mudança. Para te inspirar, reproduzi abaixo a impagável letra de Raul Seixas.

Abraços e boa semana!

Ana Gabriela

Metamorfose Ambulante

Prefiro ser essa metamorfose ambulante
Prefiro ser essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo

Eu quero dizer agora o oposto do que eu disse antes
Prefiro ser essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo

Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou
Hoje eu sou estrela amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio amanhã lhe tenho amor
Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator

É chato chegar a um objetivo num instante
Eu quero viver essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo

Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou
Hoje eu sou estrela amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio amanhã lhe tenho amor
Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator

Eu vou lhes dizer aquilo tido que eu lhes disse antes
Prefiro ser essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo

Recuperei a letra de Raulzito neste site: https://play.google.com/music/preview/Tfgkqwhncfwm2mh6gagu3h32nwe?lyrics=1&utm_source=google&utm_medium=search&utm_campaign=lyrics&pcampaignid=kp-lyrics

Imagem da Fayga: https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/originals/29/cc/39/29cc395b4df2b1646a4618e4266a55f5.jpg

Auto-engano e prática criativa

O auto-engano, tema de tantos debates filosóficos, talvez possa ser considerado uma defesa psíquica para lidarmos com as circunstâncias da vida. Como ponderou Eduardo Giannetti  em seu livro Auto-engano*, sem isso, nossa vida perderia parte do encanto, seria excessivamente dolorosa.

Fernando Pessoa, em Autopsicografia, nos enleva com a beleza do auto-engano:

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.**

Estariam as arquitetas e arquitetos praticando uma forma produtiva de auto-engano, quando desenham, fazem croquis para trazer uma obra do mundo das coisas imaginadas para o das coisas construídas, acreditando na existência delas com cada fibra de seu ser, mesmo quando não sabem direito como aquilo vai ser feito? Lembro dos croquis de Jorn Utzon para a Sydney Opera House, e dos desenhos iniciais. Quando ganhou o concurso, não conhecia os meios com os quais de fato materializá-lo.

O auto-engano foi visto como o gesto humano mais íntimo, mais secreto,  por Herbert Fingarette, em seu Self-deception*** , que também se inquieta com o que há de paradoxal nessa prática.

Porque no caso de uma pessoa que engana a outra, fica claro que a culpada é a que enganou, inocente a enganada. Mas o que fazer do indivíduo que é ao mesmo tempo enganador e enganado?

Praticar o auto-engano consigo mesma, ou consigo mesmo, é também o que nos leva adiante, a despeito de todas as evidências práticas. Engravidar de propósito no doutorado, uma prática tão habitual (sei por experiência, minha, de minhas orientandas e orientandas de colegas…), é um exemplo. A princípio, ela engana-se achando que vai dar conta de ambos, doutorado e bebê. Quando nasce a menina ou menino, ela percebe o que já sabia no início, que não vai dar conta!

Mas disso decorre a coisa interessante. Ela não vai dar conta no modo de realidade em que estava habituada a viver. Ela, e possivelmente o pai da criança, terão que desenvolver uma outra compreensão da própria realidade, das próprias possibilidades. Uma outra visão de si e sua atuação no mundo. Aí o doutorado sai, e ela termina a pesquisa com o título e a criança. E tudo aconteceu por conta de algo que, no início, possivelmente foi uma forma de auto-engano.

Retomando o caso das arquitetas e arquitetos. Assim como Jorn Utzon, será que Denise Scott Brown, Kazuyo Sejima, Lina Bo Bardi, você e eu sempre sabemos como uma obra vai ficar e como fazê-la? (Tente responder sem usar auto-engano!)

Mas, enfim, estes são apenas alguns caminhos pelos quais pensar o auto-engano, que me serve para dizer o que quero dizer hoje.

No início, e durante o processo de desenvolver um trabalho criativo, frequentemente duvidamos, hesitamos, perdemos a confiança. Diante de uma bagunça de artigos e livros não inteiramente estudados, textos ainda em estado primitivo e insatisfatórios, prazos apertados e tarefas cotidianas intermináveis (renovar o seguro do carro, cadastrar a impressão digital para as novas eleições, comprar o material complementar da escola das crianças, etc., etc., etc….), é razoável imaginar que você não vai terminar nunca! Que, sendo realista, você não tem a menor condição de dar conta deste trabalho, e coisas do tipo.

De fato, pode mesmo ser verdade. Daí só nos resta lembrar, sempre temos o auto-engano!

Foi procurando encarar de modo bem-humorado esta artimanha íntima sua e minha, que pensei no que fazer, e em como fazer, nesta sexta-feira.

Rotina da semana e tarefa do dia abaixo:

Semana 2 / Fase 2: Levantamento de dados

Tarefa do dia:

Como sempre, ajuste seu timer para uns 20 ou 30 minutos para essa tarefa. Usar o timer é importante para você não perder o controle das outras coisas que tem que fazer ao longo do dia!

Sente em uma posição confortável, relaxe e respire fundo por alguns minutos, até sentir mais calma e tranquilidade. Procure pacificar-se internamente só por esse período de 20 ou 30 minutos.

Pense. Se você não tivesse todas as obrigações que você tem, se você tivesse todo o tempo do mundo, todo o dinheiro do mundo, e todos os recursos do mundo para fazer seu trabalho, como ele ficaria?

Qual tamanho ele teria? De que material seria feito? Cores? E seu conteúdo, o que você acha que seria o ideal em termos de conteúdo? Que nível de profundidade você gostaria de atingir? Pense em todos os detalhes, se quiser, anote tudo isso.

Quando voltar de sua meditação, pense um pouco se a visão ideal está tão longe assim da visão possível. Pense se não seria possível fazer ajustes pequenos em sua vida, para trabalhar no sentido de aproximar mais seu trabalho da visão imaginada.

Por hoje é isso, bom fim-de-semana!

Abraços,

Ana Gabriela Godinho Lima

*(Cia das Letras, 2005)

**Autospicografia, de Fernando Pessoa (27/11/1930) – recuperado em: http://www.releituras.com/fpessoa_psicografia.asp

***1a edição, Routledge, 1969. Em 2000 saiu pela Blackwell uma nova edição, adicionada de um capítulo.

Imagens:

Foto: https://media-cdn.tripadvisor.com/media/photo-s/06/7e/de/b0/caption.jpg

Croquis: http://2.bp.blogspot.com/-1vOllUfmU3M/T8Cx3RR_CSI/AAAAAAAAAf0/nEoBL4HBeKc/s1600/Red+Book+sketch+1958.png

conversas sobre projetos e a vida

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