O Lugar da Mulher na Arquitetura

A primeira resposta que me veio à cabeça diante da pergunta proposta pelo CAU, “Qual é o lugar da mulher na profissão?” foi: posicionar-se em relação às áreas de atuação da arquitetura e urbanismo, e assumir as atribuições próprias e peculiares à profissão. Sob a perspectiva da atuação profissional, é de se pensar se desejamos delimitar uma esfera, um local, uma posição específica para a mulher.
De qualquer modo, algumas posições mais frequentes já foram mapeadas há tempos, e parecem não ter se alterado significativamente. Em 1977, Gwendolyn Wright em: On the Fringe of the Profession: Women in American Architecture”, identifica 4 posições:
- a arquiteta excepcional, que, sacrificando a vida pessoal, casamento, filhos, etc., e trabalhando arduamente, alcançou um grau dereconhecimento incomum para uma mulher, e comparável ao de umhomem excepcional;
- a desenhista anônima, que trabalha em escritórios tolerando adiscriminação e a falta de reconhecimento do mérito de seu trabalho.Esta prossional também encontrava dificuldades em conciliar aprofissão com a vida pessoal, o casamento e os serviços domésticos, na maioria ainda sob sua maior responsabilidade;
- a profissional adjunta, que, possuindo interesse pelo aspecto socialdo ambiente construído, seguiu caminhos diferentes na arquitetura: professora, historiadora, crítica, escritora, jornalista, etc…;
- a profissional das reformas sociais, que, também sem uma formaçãoespecfica em arquitetura, dedicou-se a buscar alternativas dehabitação e cidadania para os excluídos ou marginalizados.
(Wright in Lima: 2013)
Em 2015, quando coordenei o ramo brasileiro do levantamento internacional “Women in Architecture: 1975-2015” (Organizado por Eva Álvarez – Universidade Politécnica de Valência – Espanha e Yasmin Shariff, Architectural Association – Reino Unido), esta situação parece ter se mantido, ao menos nos 25 países em que a pesquisa foi realizada.
Ou seja, poderíamos dizer, ainda hoje, que o lugar da mulher na profissão é predominantemente anônimo, adjunto e muito mais frequentemente, à margem da própria profissão, no que se refere à profissionais das reformas sociais. Como Wright pondera, entretanto, ainda assim, um modo de trabalhar nos campos afetos à arquitetura. Ao menos se considerarmos sob a perspectiva das atribuições e responsabilidades que a profissão da Arquitetura e Urbanismo invocam como suas.
Nos últimos anos, em que tenho voltado minha própria prática profissional, predominantemente como pesquisadora, ao tema dos territórios urbanos vulneráveis, tive a oportunidade de constatar, ao lado das e dos colegas de projetos de pesquisa, a imensa maioria de mulheres nos trabalhos ligados ao 4o ponto de Wright – “a profissional das reformas sociais”.
Alguns dados ligados a esta questão nos chamam a atenção, imagino, como arquitetas e arquitetos. Hoje, a maior parte da população urbana latino-americana, 85% das pessoas, vive em território urbano. A maior parte destas pessoas vive com algum grau de precariedade. Uma porcentagem expressiva, em condições de vulnerabilidade social. A maior parte destas pessoas, mulheres e crianças. Se somarmos a este contingente os idosos, deficientes físicos e o contingente de pessoas que precisam de alguém que cuide delas, esta proporção fica ainda maior. Hoje, 85% das crianças é cuidada por mulheres, sejam mães, tias, avós, irmãs… a maior parte das pessoas que precisam de assistência também é cuidada por mulheres.
Vejamos como essa questão é vivida pelos indivíduos no território urbano. De acordo com os Proceedings da ConferênciaSmall Children, Big Cities: Building Smart Child-friendly Cities for the 21st Century (2014, India)as crianças pequenas são afetadas por todos os aspectos das cidades, dos quais, os mais significativos são experimentados nas seguintes áreas:
Água e saneamento básico
Habitação decente
Serviços à primeira infância – como berçários e creches
Assistência à saúde
Espaços de recreação
Transporte
Segurança
Quais destas áreas não são afetas a nossa profissão?
A questão é que a porção que cresce mais rápido nos territórios urbanos é justamente a informal e precária. Em que os ítens acima são precariamente oferecidos, se o forem de algum modo. Nesses cenários, as pessoas engajadas no trabalho diário de sobrevivência, e mitigação, desta situação, são, em sua vasta maioria, mulheres.
Talvez uma dos maiores e mais graves situações com que a profissão da arquitetura e urbanismo se depara hoje seja justamente o crescimento explosivo e desordenado dos territórios informais. Como enfrentar o conjunto de problemas que se nos apresentam neste contexto?
No momento, as mulheres constituem a maioria das pessoas engajadas de algum modo em trabalhar nestas situações desafiadoras.
De modo que parece valer a pena, numa gentil e bem intencionada provocação, propor a pergunta:
“Qual o lugar do homem na profissão?”
Muito obrigada!
Ana Gabriela
Meus agradecimentos e reconhecimento pela colaboração e produção conjunta de conhecimento às pesquisadoras e pesquisadores do Projeto “Cultura, cidade, Gênero e 1a Infância”, coordenado por mim e pelo Prof. Ms. Rodrigo Mindlin Loeb, no âmbito do Termo de Cooperação Técnica Universidade Presbiteriana Mackenzie e Instituto Brasiliana. Assinalo aqui também o financiamento concedido pela Fundação Bernard Van Leer a uma de nossas mais importantes iniciativas – SPUrban95 Challenge – Núcleo de Pesquisa e Intervenção: Cidade, Gênero e 1a Infância.
Ref. bibliográfica:
Lima, Ana Gabriela Godinho Lima. Arquitetas e Arquiteturas na América Latina do Século XX. São Paulo: Altamira Editorial, 2013. Disponível gratuitamente para download em: https://femininoeplural.wordpress.com/e-book/
*Este post reproduz o texto que serviu para minha fala no Evento do CAU/SP ocorrido hoje, 08/03/2018, no saguão da FAU Mackenzie.
Sobre Wittgenstein e aquilo que pode ser dito
“Posso escrever acerca do sei, mas posso igualmente escrever sobre aquilo que não sei”.
Fiz esse registro há anos, mas não acho mais esse caderno. Lembro que era pequeno, tinha uma encadernação em espiral e uma capa dura em tons de branco e vermelho.
Eram anotações acerca de uma palestra sobre o conhecimento científico e a reflexão auto-biográfica, ou ao menos é assim que recordo.
Não posso dizer que minhas anotações eram fiéis ao que o palestrante dizia, mas lembro de ter gostado particularmente da ideia de escrever sobre aquilo que não sabemos. Não haveria aí algo de estimulante, reflexivo – porque indagador – acerca de um objeto, ou assunto, sobre o qual pouco, ou nada, se sabe?
Na impossibilidade de procurar na hora em que me vieram estes pensamentos, fiquei buscando lembrar o que dizia mesmo Wittgenstein sobre “aquilo de que se pode falar”, e das associações entre seu trabalho e o Tao Te Ching, feitas por gente que estuda o assunto.
Assumindo que eu esteja me sentindo propensa, hoje, a escrever sobre um assunto que eu pouco sei, vamos ver o que se passa ao lançar algumas ideias para uma verificação posterior.
Começo pelo trecho de um aforismo do Tao te Ching:
O Tao do qual se pode falar não é o Tao eterno
O Nome que pode ser nomeado não é o nome eterno
O sem nome é a origem do Céu e da Terra
O que tem nome é mãe de todas as coisas
E agora um trecho de Wittgenstein:
„A solução do enigma da vida no espaço e no tempo encontra-se fora do espaço e do tempo.“
E encerro minha curiosa tentativa ponderando sobre o seguinte. Assim que lançamos mão de uma estrutura de pensamento para entender algo, contemplamos uma projeção recém reorganizada de nossos pensamentos passados sobre aquilo, ou algo semelhante àquilo.
Sendo assim, a apreciação da arquitetura, da arte, de algum modo são restringidos no momento mesmo em que se pensa, ou se fala, ou se escreve, a seu respeito. O que me leva a outro aforismo de Wittgenstein:
„Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar.“
O que me leva ao seguinte raciocínio, que peço que minhas leitoras e leitores considerem com leveza e senso de humor. Não seria um exercício mais enriquecedor, e ampliador de possibilidades, diante da obra de arte, da arquitetura, ou até mesmo de uma situação nova, pensar, falar e escrever a respeito daquilo que não se sabe?
Quem sabe nos encontramos em um café por aí um dia desses e levamos esse papo adiante?
Abraços!
Ana Gabriela
A imagem que ilustra meu post de hoje é uma foto do pires retangular de minha xícara de café. O que mais gosto nele é o fato de parecer uma imagem do espaço sideral! Olhando-a, seria bem difícil adivinhar sua origem, não é verdade?
Trilha sonora do post de hoje: (Min Soldat, Scott Hamilton)
Referências para os trechos que mencionei:
Que tipo de pessoa você deseja ser em 2018?
Amigas e amigos queridos do inquietudes projetuais,
Estou de volta a meus posts, depois de uns tempos de prospecção interna. Na virada de 2017 para 2018 fiz um interessante exercício de, digamos, transmutação de energias, se não for pretensioso demais chamar assim o método que me impus ao reorganizar as minhas coisas no fim do ano. Método este que consistiu em pegar nas mãos cada um de meus objetos, roupas, livros, cadernos, lápis, canetas, etc.. e pensar, de modo breve, e leve, na pessoa que eu fui ao usar aquela roupa, aquela caneta, ao ler aquele livro, e assim por diante.
No início do processo imaginei “limpar” aquele objeto das memórias ligadas a ele que eu gostaria de dispensar, características da pessoa que eu fui e das quais aquele objeto me trazia recordações, que eu não desejava levar adiante.
Também “carregar”, cada um de meus objetos, com a visão da pessoa que eu desejo ser em 2018. E, claro, como nesse blog eu trato das questões da produção criativa e projetual, naturalmente você já entendeu que estou me referindo à pessoa que eu fui, e que desejo ser, em termos de meu processo de criação e desenvolvimento de projetos!
Gostei muitíssimo de fazer esse exercício. Falei sobre ele a uma pessoa queridíssima, que também o fez obtendo enorme satisfação.
Este processo de tocar cada um de seus objetos, limpá-los, reorganizá-los, enquanto com leveza e delicadeza deseja limpar-se dos comportamentos que já não fazem sentido para você, e preparar-se para adotar outros mais condizentes com seus aprendizados, suas experiências do ano que terminou, seus anseios, pode ser um gesto de reapropriação de sua vida, de fortalecimento da auto-estima, de reavaliação e aprofundamento de seu auto-conhecimento.
Talvez você tenha muitos objetos e pertences, o que pode tornar este exercício impossível de fazer em pouco tempo. Eu levei uma semana, e a pessoa a que me referi também levou mais ou menos esse tempo. Se você ficou com vontade de fazer este experimento, não desanime se tiver coisas demais. Simplesmente escolha um setor, ou subsetor de sua vida. Por exemplo: só as roupas que você usa quando senta para escrever ou projetar.
O bacana deste exercício é a ideia de limpar, e reimantar objetos significativos que você manuseia no seu dia-a-dia, com as características da pessoa que você aspira ser. Talvez você nunca seja exatamente como imagina, o que é, aliás, bem provável. Mas sentir-se caminhando na direção certa faz um bem incrível. Mesmo quando você se perder, se enganar, errar feio (como com certeza fará, e eu também), você sabe para que direção se voltar novamente, terá uma intuição mais forte sobre qual é o seu norte, e como corrigir o rumo!
Mesmo que você ainda leve um tempinho para animar-se a fazer este exercício, permita-me sugerir que comece ainda hoje, com um objeto prosaico mas muito presente no seu dia-a-dia, com a xícara em que você toma café. Usei a minha para ilustrar o post de hoje.
Que aproveitemos juntos este ano de 2018, nos encontrando por aqui no blog e em nossos percursos e inquietudes projetuais!
Abraços,
Ana Gabriela
P.S. Minha simpática xícara de café da foto (recém transmutada, rsrs) mora na minha mesa de trabalho. Foi feita pela ceramista Hideko Honma, cujo trabalho admiro muito (http://www.hidekohonma.com.br/). Atrás estão folhinhas de pelargônio que estão criando raízes e logo serão plantadas em minha horta.
Achei que seria divertido compartilhar a trilha sonora de hoje, enquanto escrevo: The best things in Life Are Free (Scott Hamilton, Karin Krogh)
(Peguei esta imagem do site da Amazon…)
Doçura e simplicidade
Não é possível ser doce sem ser simples. Foi o que andei considerando estes dias. Um gesto de doçura tem esta qualidade de ser algo pequeno, modesto, ligeiro, mas que abranda o espírito.
Um gesto doce se oferece sem esforço, e por isso não sugere a expectativa de um retorno, uma recompensa. Um sorriso, um olhar, um toque casual são as experiências prosaicas que podem portar, inesperadamente, inadvertidamente, a doçura. Um átimo em que se compartilha uma centelha de alegria, um pequeno pulso elétrico.
Outras experiências também podem ser portadoras de doçura. Ouvir com atenção, amparar com cuidado, acompanhar com gentileza, olhar de verdade.
A doçura é também um pequena esperança de redenção. Como já disse Sêneca: “Tu podes ter a virtude sem nenhum aparato nem despesa. O que quer que te faça virtuoso já está contigo.”
Dito isto me despeço, à moda das cartas de Sêneca a seu amigo Lucílio:
“Passa bem!”
Ana Gabriela Godinho Lima
Ref. Sêneca ca. 4 a.C – ca. 65 d.C. Aprendendo a viver / Lucílio Anneo Sêneca; tradução de Lúcia Sá Rebello. – Porto Alegre, RS: L&PM, 2017.
Imagem: fotografei as rosas que foram um presente de minha irmã, Ana Laura, à minha mãe, que as acomodou num vaso de alabastro que foi de nossa bisavó. Gestos de doçura que atravessam gerações 🙂
Aonde nosso coração alcança

Minhas pesquisas têm me levado a lugares que, há poucos meses atrás, jamais teria imaginado ir, em busca de conhecer os rostos, saber quem são, pensar em como trabalhar junto, com mulheres que habitam uma realidade que até há pouco eu dedicava atenção apenas circunstancial.
No espaço de poucas semanas estive no Jardim Lapenna, em São Miguel Paulista, Zona Leste da Capital, em Parelheiros, no extremo Sul da Cidade de São Paulo, e finalmente, falando no Paço das Artes, região central da Capital, no evento “Cidades Seguras para Mulheres “, realizado em parceria entre a Bienal de Arquitetura de SP e a Action Aid.
Meu grupo e eu estamos trabalhando sobre a temática das mulheres e da infância em territórios informais. Nosso foco é ajudar a pensar em modos de intervir nesses lugares de modo a gerar uma vida melhor para as mulheres e as crianças, a maioria do contingente de habitantes. Se a vida for melhor pra elas, também será para os homens, acreditamos.
Nessa pequena andança inicial, a amplitude potencial do trabalho não se mostrou tanto nos poucos lugares em que estive fisicamente, mas na viagem a que me conduziram as mulheres maravilhosas que conheci no percurso. Pessoas que generosamente concederam tempo e atenção para contar suas histórias, seus feitos, seus aprendizados.
Minha vida nestas semanas não foi apenas de São Miguel a Parelheiros, passando pelo Centro. Perambulou também pela cidades de Lisboa, em Portugal, pelas vielas da favela de Heliópolis, a maior de São Paulo, em sua região sudeste, por Osasco… encontrando a parada final em um inesperado sobrevôo pelas comunidades quilombolas de Garanhuns em Pernambuco. Todo esse trajeto foi percorrido no fluxo das palavras, das expressões, do riso e do cenho franzido das mulheres que foram recosturando pedaços de sua história, oferecendo este presente que foram as reflexões sobre suas vivências.
Algumas ouvi porque estive no local em que elas moram e atuam. Às outras, encontrei pelo caminho deste trabalho a que agora me dedico: contaram-me suas histórias e voltaram para seus mundos. E a cada processo que passamos entre nós – de contar/ escutar – foram tecendo-se os fios que delicadamente alcançam cada coração, a começar por suas extremidades.
Gosto de pensar que elas se lembrarão de mim em algum momento. E que nas nossas lembranças umas das outras faremos um desenho até onde o coração alcança.
Ana Gabriela Godinho Lima
Fotografia:
Ayane Melo.

Cortesia Eliane Vilar/ Prefeitura de Garanhuns PE
Agradecimentos:
Teresa Craveiro
Eliane Vilar
Angélica Benatti Alvim
Viviane Rubio
Lidia Tavares
Referências:
A pesquisa está sendo conduzida no contexto do Termo de Cooperação Mackenzie Brasiliana, coordenada por: Ana Gabriela Godinho Lima e Rodrigo Mindlin Loeb
Blog: projetomackenziebrasiliana.wordpress.com
Visite também:
femininoeplural.wordpress.com
anagabrielagodinholima.net
Reencontrar a própria voz

Ontem escrevia à roda de meu quarto, hoje escrevo no ônibus, voltando de Parelheiros, extremo sul da cidade de São Paulo.
E o que me vi conversando comigo mesma neste fim de tarde chuvoso? Que estive em busca de reencontrar minha voz nas coisas que escrevo em meus posts, em meus artigos, em meus escritos pessoais.
Encontrar a própria voz na escrita é um exercício e um risco diário, para quem escolhe esta prática como um instrumento de expressão. Uma vez encontrada, entretanto, nada garante que você apropriou-se dela. Aliás, “au contraire”.
Uma vez que se experimente este modo de falar consigo mesma, algo dentro de si ganha uma autonomia curiosa, às vezes assombrosa.
E foi assim que, após algum tempo em aparente silêncio, hoje em Parelheiros algo desta pessoa que sou lá dentro, voltou a me falar.
E não quis falar do assombro, ou da inquietação com a precariedade, com a vulnerabilidade e esta estranha sensação de distância e aproximação simultânea entre nossos mundos.
Mas me chamou a atenção para um certo silêncio vazio que se abriu recentemente no meu infinito particular, como diz aquela letra de Marisa Monte.
Um silêncio vazio ao ver esse menino caminhar com um pedaço de melancia ao ombro e uma sacola de frutas pendurada na mão esquerda.
Um silêncio que foi quebrado com a fala animada das minhas interlocutoras, meninas moradoras do local. Não têm 20 anos mas já têm filhas e filhos de 4, 5 anos. São lindas, inteligentes e gostam de falar de suas histórias. Dirigem meu olhar para a escada íngreme e escorregadia que submerge no solo abaixo à minha direita.

Uma delas lembra que, ainda gestante, caiu ali em uma noite escura. De outra feita, não conseguiu chegar em casa, bendizendo a sorte de ter podido dormir na casa de sua mãe. Quantas outras jovens gestantes têm suas mães por perto com quem contar?

E me apontam: “olha ali à esquerda, que rampa íngreme, vê à direita, que escada inclinada? A mobilidade aqui é muito difícil…” me contam.
E pergunto o que tornaria a vida delas melhor…
”se a escada tivesse um lugar pra segurar, seria bom.. especialmente quando tem grávida, e com bebê no colo… e também se fosse iluminada…, porque de noite é mesmo muito escuro…”
E algo lá dentro de mim me tirou daquele silêncio vazio, expressando este simples desejo. Que aquelas moças que nos ofereceram torrada, bolo e café quentinho tivessem bons corrimãos nas escadas em seus caminhos, e uma boa luz para voltarem seguras com suas crianças para casa na noite chuvosa desta terça-feira paulistana.
Abraços e até!
Ana Gabriela
As fotos são minhas mesmo. Confiram as outras em meu instagram: anagabrielagodiholima
Viagem à roda de meu quarto

Nesta manhã indecisa de domingo, em que não chove nem faz sol, não está frio mas obviamente não está calor, estou às voltas com meu artigo sobre os recém inaugurados edifícios do IMS e o SESC 24 de Maio. É uma co-autoria com um caro amigo, e logo mais deve vir à público.
Por ora, às voltas (em minha escrita) com a arquitetura contemporânea paulistana, já fui e voltei tantas vezes, em meus pensamentos, aos dois prédios, já subi e desci tantas vezes aquelas rampas e escadas, já contemplei a cidade, de vários ângulos, neste dia de clima duvidoso, a partir daqueles maravilhosos planos elevados, que até mesmo já sentei para tomar um cafezinho e descansar contemplando a paisagem, nos dois edifícios ao mesmo tempo, algo que só a fantasia poderia me proporcionar.
Com tanta atividade logo pela manhã, não pude deixar de lembrar de um de meus livros mais queridos: “Viagem à roda de meu quarto”, de Xavier de Maistre. Publicado originalmente em 1794, é uma delícia de ler, além de ser considerado uma das obras centrais para a formação do romance moderno. Uma aventura introspectiva que, me permito sugerir, é melhor aproveitada acompanhada de uma boa xícara de café e ao som de “Blues Corners”, com Jim Tolinson.
Bom domingo!
Ana Gabriela
Fonte da imagem: https://http2.mlstatic.com/D_Q_NP_709321-MLB20757625426_062016-Q.jpg
Clarice Lispector e uma palavra final

“Olhar é o necessário instrumento que, depois de usado, jogarei fora”.
Clarice Lispector foi a autora que me reapareceu nestes últimos dias, por uma aluna, em seu trabalho final de graduação, e no papo com um amigo, nestas conversas ao acaso que acontecem sem a gente esperar, e que fazem a gente matutar. “Uma palavra final” porque estou escrevendo este post ao repassar o que pretendo dizer às alunas e alunos na última aula de minha disciplina de Pós-Graduação, “Questões de Ensino de Arquitetura e Urbanismo”.
E retomei esta frase de Clarice…
“Olhar é o necessário instrumento que, depois de usado, jogarei fora.”
Está no texto “O ovo e a galinha”, que minha aluna trouxe para seu trabalho, e por causa dela eu uso aqui.
Me demorei um pouco mais na ideia do olhar como instrumento, e em como olhamos as coisas, e as pessoas, prendendo-as nos nossos velhos e bons discursos, que nos servem para por tudo e todas e todos em seus lugares.
Claro que há os discursos que a gente sabe que são problemáticos: os clichês, os conservadores, os preconceituosos, os machistas, os ultrapassados, os cristalizados, etc.. mas a estes somos todos atentos, e talvez saibamos como nos esquivar.
Mas e os discursos bacanas? Contemporâneos, abertos, flexíveis? Aqueles cultos, sofisticados, politicamente bem posicionados. Originais, criativos, insólitos, únicos?
Esses também, Clarice, vamos usar e jogar fora?
Se eu pudesse compartilhar algo que valha a pena do que aprendi com a experiência eu diria: sim, acho que convém que façamos como Clarice e, depois de olhar, seja o ovo, seja a aluna ou aluno na nossa frente, sejam nossas filhas, filhos, esposas e maridos, velhas amigas e velhos amigos, joguemos estes bons instrumentos, estes nossos olhares espertos, cultos, experientes e sofisticados fora… e esperemos pra ver o que vem depois.
Depois de tanto tempo dando aula, posso dizer que tipo de garota ou garoto aquela aluna ou aquele aluno devem ser, mas também aprendi que, certamente, a maior parte do que ela e ele são eu deixei de fora.
Tenho menos experiência com filha, tenho só uma, e filho, tenho só um, embora seja uma vivência intensiva! E a cada vez que acho que entendi quem são, veja só, uma parte disso ela e ele, na verdade, não são…
Meu marido, estamos há tanto tempo juntos, e eu conheço tantas teorias sobre o que os homens são, e o que as mulheres são, e o que os relacionamentos são, e o que os relacionamentos deveriam ser, o que não deveriam ser, que, realmente, acho até engraçado imaginar que eu possa olhá-lo e dizer que entendi mesmo alguma coisa do que ele é. O senso de humor, vontade de ter boa vontade e o apreço pela boa comida nos salvam!
As coisas simples nos salvam, comer, beber e rir…
O olhar é tão complicado! Bem fez Clarice ao jogá-lo fora, afinal.
E as velhas amigas e os velhos amigos? Se eu ainda pudesse dizer alguma coisa, quando sei que perdi a oportunidade, talvez eu devesse recorrer a bons e velhos clichês, dizendo: “afinal demos boas risadas juntas!” ou “mesmo que não concorde com seu estilo de vida, é um prazer conversa com você”.
Todo olhar diz alguma coisa para o objeto olhado. Toda professora, com seu olhar, diz alguma coisa para cada aluna, cada aluno, cada classe. Se eu pudesse ser coerente com o que digo, e sugerir uma única coisa que talvez fizesse uma certa diferença, como professora, como mãe, como esposa e como amiga, eu sugeriria, como já disse, que façamos todos como Clarice: joguemos nossos olhares classificatórios, interpretativos e proféticos fora, e esperemos candidamente o que vem depois.
Abraços,
Ana Gabriela
Fonte da imagem:
Como escrever uma introdução nota 10

Entre os experientes em escrita, é comum dizer-se que a introdução é o que se faz por último, e por um bom motivo. É na introdução que podemos falar sobre nosso trabalho inteiro, dando à leitora ou ao leitor, um mapa, um roteiro das ideias que serão desenvolvidas ao longo da leitura.
Isto, claro, se o seu texto não for um romance de mistério. Nesse caso é melhor revelar o autor do crime no final. Mas se seu trabalho é uma monografia, uma dissertação ou uma tese, acredite em mim: sua leitora ou seu leitor vai preferir que você explique sobre o que é, afinal, o seu trabalho, nos primeiros três parágrafos.
A questão é, como fazer isso?
Seguem alguns insights que podem te ajudar:
1.) A primeira sentença da sua introdução deve conter as seguintes informações:
Sobre o que é este trabalho?
Lembre das eternas perguntas! O que, como, quando, porque, aonde, em que período!
Porque você fez este trabalho?
Ou seja, porque ele é interessante? Qual interesse específico você viu nele? Porque você acha que outras pessoas podem interessar-se pelo tema? Como você acha que seu trabalho pode beneficiar outras alunas e alunos, de graduação, mestrado ou doutorado? Como você acha que seu trabalho pode interessar profissionais das áreas abordadas em seu trabalho?
Quais os principais três textos em que você se baseou para desenvolver seu trabalho?
Cite cada texto, explique quem é sua autora ou seu autor – seja livro ou site – e desenvolva um parágrafo sobre cada um deles.
Quais as principais dificuldades encontradas para desenvolver seu trabalho?
Pense nisso, o que foi mais complicado? Achar bibliografia? Encontrar dados? Estruturar o trabalho? Descreva a dificuldade e como você a superou.
O que te deu mais prazer, ou “sensação de cumprir um propósito”, ao desenvolver seu trabalho?
Dê a seu leitor um perspectiva interessante, mesmo que seu trabalho fale sobre um tema difícil. Fale sobre como você se sentiu ao encontrar dados que comprovavam suas suspeitas, ou ao conversar sobre o tema com alguém, ou como uma amiga ou amigo te ajudou, ou como foram as entrevistas e visitas e locais, e o valor das experiências que você viveu.
Explique rapidamente a estrutura do trabalho
Explique rapidamente a estrutura do seu trabalho, quais são os capítulos e como se encadeiam.
E pronto!!
Veja como ficou sua introdução, no dia seguinte, reveja para localizar erros, reorganizar a estrutura de pensamento, mexer aqui e ali. Talvez valha a pena escrever duas ou três linhas finais, introduzindo a leitora ou leitor ao primeiro capítulo? Isso fica a seu critério!
Abraços!
Ana Gabriela
Fonte da imagem:
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Sobre a frase atribuída à Zaha Hadid – achei bacana, concordo e aparece em vários lugares na web. Entretanto, não verifiquei sua veracidade. Se você tem conhecimento de que esta frase não é atribuível à Sra. Hadid, agradeço a gentileza e generosidade de me informar.




